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Dezesseis crianças vítimas de incêndio em creche recebem alta hospitalar em Janaúba MG
08/10/2017

Cecília Davina Gonçalves Dias gostava de plantar, brincar de dar comida para as bonecas e vestir a camiseta do Galo (apelido do Atlético Mineiro) para então sair pulando pela casa: "sou o galo doido!", dizia, provocando risadas nos pais, no tio e na avó, com quem morava - a única criança na casa de gente grande. "A Cecília podia estar com 40 graus de febre, mas nunca estava triste. Sempre estava alegre, correndo", disse o pai, Adilson de Almeida Gonçalves, de 25 anos, ao lado do pequeno caixão da única filha. "A gente vai chorar e sofrer muito, mas só peço para vocês lembrarem desse rostinho. Só disso. Lembrem a alegria dela." A menina de 4 anos foi velada e sepultada neste sábado em Janaúba, cidade no norte de Minas, após o incêndio criminoso na creche Gente Inocente, que deixou 40 pessoas feridas e matou outras dez - a décima vítima, Talita Vitória Bispo, de 4 anos, morreu na manhã de sábado. Cecília chegou a ser dada por morta antes da hora. O Corpo de Bombeiros de Minas Gerais divulgou sua morte na noite de quinta-feira, depois que ela teve uma parada cardíaca, e só desmentiu a notícia na manhã do dia seguinte. "Nós começamos a arrumar a casa para o velório, a minha irmã desesperou, e amigos e vizinhos começaram a chegar para o velório, e todo mundo me pedindo informações pelas redes sociais", lembra seu tio, o técnico em segurança do trabalho Erick Medeiros Dias. Até que a mãe de Cecília avisou que estava tudo bem e que ela tinha visto a filha. "Ela era a alegria de todo mundo por onde passava. Vai fazer muita falta. Já está fazendo muita falta. Não dá para acreditar que ela se foi", afirma Dias.     Cecília morreu às 13h15 de sexta-feira, sucumbindo às queimaduras e ao estrago feito em seus órgãos por inalar a fumaça tóxica do fogo ateado na creche. O vigia noturno da creche, Damião Soares dos Santos, provocou o incêndio durante o horário de recreação creche, onde estavam mais de 70 crianças. Ele jogou combustível nas crianças, em funcionários e em si próprio, além de agravar o impacto ao abraçar algumas crianças. A BBC Brasil teve acesso às salas de aula e constatou a dimensão do estrago: brinquedos e livros carbonizados no chão, parede e pisos tingidos de preto pela fumaça. Tiras de PVC que forravam o teto estavam caídas no chão, derretidas. Tudo exala um forte cheiro de queimado. Alguns chinelos e sapatinhos das crianças ainda estavam espalhados pelo chão.   Um quarto para as bonecas   Todos os alunos mortos na creche foram velados por suas famílias dentro de casa, muitas vezes madrugada adentro, como o velório de Cecília. Seu corpo chegou em casa logo depois da meia-noite. A família praticamente não dormiu. O movimento de vizinhos, parentes e amigos começou de madrugada e continuou até a hora do enterro, às 11h30.   Cecília Davina Image caption Menina de 4 anos foi uma das vítimas do incêndio em creche em MG (Foto: Arquivo Pessoal) O caixão foi colocado no centro de uma sala de paredes cor-de-rosa, com fotos da menina com roupas também cor-de-rosa. Seus olhos castanhos arregalados nas imagens fitavam quem chegava. Cecília morava na casa da avó com seus pais e seu tio, em uma casa simples no bairro de Rio Novo, perto da creche, na periferia da cidade. É uma região de baixa renda, com construções de baixo custo, comércio barato e ruas de terra. Logo na entrada, pilhas de tijolo, brita e telhas estavam dispostos nas laterais do quintal. A família estava prestes a começar uma obra para acrescentar três cômodos à casa. "Ela sempre dormiu comigo e com a minha esposa, mas a gente ia construir um quarto para ela", conta o pai Adilson Gonçalves. "Ela estava feliz da vida que ia ter o cantinho dela com as bonecas."   Rosto perfeito   Todos na família trabalham o dia todo, e por isso Cecília estava matriculada no período integral. O pai é funcionário em uma empresa terceirizada da Ambev, a mãe é supervisora da Avon, a avó é empregada doméstica.  

Fonte: UOl
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